sexta-feira, março 31, 2006

the city

Passeava-se pelas ruas com o pacote do vinho. Sim o pacote. Fazia parte da cidade. Confundia-se com ela. Nunca o vira mendigar. Andava por ali. Fora tão válido como os outros, ainda o seria. Baixou os braços. Sempre o conhecera assim. Dono de uma simpatia embriagada do vinho que os sóbrios colocam na comida. O pacote era a sua identidade. Ninguém lhe conhecia o nome mas todos o conheciam pelo “bêbedo que andava sempre com o pacote de vinho”. Não seremos todos assim? Vultos que se confundem com os lugares sem que ninguém saiba quem realmente são?

terça-feira, março 28, 2006

chaise

Levantou-se da cadeira. Mesmo sem que esta tivesse tempo para arrefecer. Olhou para o ecran. acedeu ao diário Escreveu. Levantou-se. Deu-lhe um beijo. Piscou o olho. Ela percebeu. Deitaram-se. levantaram-se. Era sempre assim. Tirando o jogo da cadeira.

sábado, março 25, 2006

mesmo que...

Saiu. Ele ficou. Mas estava tudo bem.

quinta-feira, março 23, 2006

partilha-me


Todos os dias lhe contava o seu dia. Tudo. Até o mais desinteressante pormenor. Perguntava-lhe até à exaustão o que achava do que tinha feito. Era a forma que tinha de partilhar momentos em que não podia estar presente. Pensou escrever uma carta, um diário de papeis soltos tal como as coisas que lhe contava. Achou que seria melhor se lho contasse. Aborrecia-lhe as conversas indiscretas acerca do colega do escritório que cheirava mal. Não teria mais nada para lhe dizer se de outra forma fosse. Aborrecia-a. Vivia na ânsia de cumprir o programa que tinha traçado para si mesma. Vivia para que saísse para outro lado onde iria mais tarde sentir sufocada, pelas mesmas ou por outras razões. Isso não a demovia. Era verão. No Inverno passado a mesma coisa e assim na anterior estação. Aborrecia-a. Teve medo que algum dia, sem aviso, visse partir o comboio e ele ficasse ali, a contar, a ninguém, o que lhe tinha acontecido nesse dia. Calou-se. Falava agora de televisão. Mesmo aborrecido.

quarta-feira, março 22, 2006

fê-lo

Acordou-o com um beijo... Há coisas que não se fazem.

terça-feira, março 21, 2006

assim

Caiu um pingo. Acordou. Mesmo debaixo da chuva intensa, caminhara sem se aperceber o tempo que fazia. Acordara debaixo de chuva intensa sem se poder defender dos cada vez mais pesados pingos. Bastou uma gota, naquele momento, para se aperceber que estava encharcado. Sentiu um arrepio. Estava molhado de mais. Deixou-se ir. Assim. Mesmo que detestasse andar molhado.

quarta-feira, março 15, 2006

música

Mesma sala, mesmo concerto, mesma música. Ambos estavam lá. Pouco provável que os pensamentos se acompanhassem. Ambos deram as mãos e mesmo assim... A música era para eles um comboio que partia em direcção a destinos que apenas eles sabiam onde ficavam. À noite já na cama, já vencidos pelo sono, sonharam com os mesmos desejos, as mesmas desilusões, as mesmas pretensões, a mesma vid… tocava o despertador. Talvez o relógio não quisesse que o sonho revelador os iludisse com algo que nunca se deve adivinhar, a vida. Foi melhor assim, pensou ele mesmo antes de entrar para a banheira.

segunda-feira, março 13, 2006

talking about love

Quantas vezes o amor não é mais do que pendurar uns simples candeeiros para que, no fim do dia, lhe veja o brilho nos olhos. Coisa estranha o amor! Ele não achava.

sexta-feira, março 10, 2006

porquê

Sabia bem por que o fazia.
Havia quem achasse que era teimosia, quem pensasse que o fazia para ficar com os louros do primeiro lugar de um pódio criado apenas por ele, acreditava-se que o fazia esperando um agradecimento eterno, que ninguém estava predisposto a conceder. Trabalhava muito e, mesmo que não esperasse nada em troca, não lhe parecia de mais. Depois das sete, vestia a pior roupa que tinha e enfiava-se no meio do pó. Fazia o melhor que sabia e conseguia. Era muito.
Fazia-o por eles.
Desde o início, chatearam-se, fartaram-se, avançaram, acreditaram, recuaram, desmoralizaram, chegaram a sorrir no início mas depressa se aperceberam das adversidades. É tão difícil levar em frente um projecto a dois – chegara a pensar. Passou-lhe pela cabeça desistir – porque não. Era teimoso. Foi o que lhe valeu.
Estavam juntos e isso parecia-lhes o mais importante. Amam-se e isso chega para que enfrentem os problemas. Pelo menos acham que sim.
Talvez achem bem.

quinta-feira, março 09, 2006

cá estamos

Olhara para a janela do escritório uma última vez. Era a primeira vez que a via daquela maneira. Acabara de receber um telefonema da mãe. Mesmo estando três casas acima da sua, resolveu dar-lhe notícia pelo ríspido aparelho. “O teu pai aceitou assinar”. Desligou. Os olhos encheram-se de um fluido estranho. Reparou, pela primeira vez, que a janela dividia a meio o prédio do outro lado da rua, tal qual a anunciada assinatura dividiria três vidas. De relance, pensou nos trinta e dois anos passados. Escorregou-lhe uma gota pelo rosto. Fez face a outra quando reparou que o colega o observava. Pegou na caneta, olhou para o papel. Justificava agora os trocos que recebia no final do mês, no mais credível faz de conta que conseguiria algum dia simular. Não se atreveu a levantar a cabeça quando ouviu um polido Está tudo bem? Não queria correr o risco de ser traído por outra lágrima que inadvertidamente lhe percorresse o rosto. Cá estamos!

terça-feira, março 07, 2006

ali

Todos os dias, mesma hora, todos partiam e ele ficava ali, sentado como se quisesse que o dia lhe passasse de repente. Queria que fosse já noite quando tirasse os olhos do monitor e pudesse arrastar-se para casa. Depois desistia. O barulho do ar condicionado ressoava-lhe na cabeça. Ao sinal da uma levantava-se, pegava no casaco e saía. Todos os dias se limitava a existir. Dava-lhe menos trabalho. Doía-lhe muito.

segunda-feira, março 06, 2006

tudo igual e mais...

Dois dias sem grandes emoções em que tudo igual a tantos outros pares de dias. Não foi. Neste dois, disse que o amava. Já o tinha feito antes, mas agora de forma diferente, não o verbalizou. Encontrou no fundo de si a maneira de o dizer. Ele a forma de o entender. Foram dois dias sem grandes emoções mas soube-lhe bem.

sexta-feira, março 03, 2006

Conta-gotas

A vontade de estar fez-me voltar. Deixar as ideias de parte e tentar voltar, qual gota liberta do manto de neve que pinta o telhado. Voltar da inconsciência premeditada, da clausura que a liberdade de ficar agarrado a concessões involuntárias pode trazer. Quantas vezes nos julgamos livres quando cavamos o próprio covil. Sair.