sábado, junho 24, 2006

terça-feira, junho 13, 2006

sans titre, sans sang

Dá agora mais valor à expressão: "Ficar sem um pingo de sangue no corpo!". Que parvoice Avó. Dizia ele indignado quando ouvia uma frase destas vindas dos confins da única boca feminina da casa. Claro que tinhas sangue no corpo. Não te cortaste, não te magoaste... nem uma hemorragia tiveste... Retorquia já chateado com a suposta sabedoria da Avó iletrada. Tanta razão que tinhas Avó. Quantas vezes o medo nos seca os cerca de 5 litros de sangue que nos correm as veias. Se soubesses como te dou razão. Há qualquer coisa na sabedoria dos velhos iletrados que apenas entendemos quando a razão deixa linhas em branco na explicação dos pormenores da vida. Que venha pois a irracionalidade e se sobreponha ao bom senso, ao normal, ao correcto, ao claro, ao inteligível que eu... estou sem uma pinga de sangue no corpo.

terça-feira, maio 30, 2006

há coisas que não se fa...

Deixou de escrever. Não deixou de ler. Era lá que se refugiava. Nos livros e na espécie de filme que ia tecendo na sua cabeça e que, apenas divulgava algumas cenas para comentário, não fosse a história ter alguma incongruente passagem ou algum plano menos preciso. Não deixou de ler. Depois de passar anos a fio sem se debruçar sobre palavras de outros, tinha retomado agora o hábito. Achava despropositado perder a embalagem. Outra vez. Deixou de fumar. Voltou a fazê-lo uma semana mais tarde. Choveram criticas de quem sabia da falta ao prometido. Não tinha cumprido a palavra. Não respondeu para não ter que explicar o sucedido. Deixaria exclusivamente as causas para sua metragem e para uns poucos afortunados que a conheciam. Eram já muitos - achava. Voltou a desenhar umas palavras no papel mesmo que soubesse que não daria continuidade ao esboço. Fê-lo na mesma. Há coisas que não se fa... Foi silenciado com um beijo.

quarta-feira, abril 19, 2006

weekend

O fim de semana não foi nada de especial. O especial foi tê-lo partilhado com quem o passou. Isso sim foi especial.

quarta-feira, abril 12, 2006

just one night

Deixem-me viver! Desabafou. Aludia aos pensamentos que lhe invadiam a noite. A noite que, achava, deveria ser apenas dele. O refúgio temporal que dispunha para descançar. Nem isso. Passavam-lhe as ideias mais odiosas pela cabeça. Umas. Outras entravam e ficavam. Rodopiavam continuamente. Não saiam. Não bastava já o dia-a-dia e a sua inevitável e perversa rotina. Entravam, não sabia vindos de onde, e apoderavam-se dele por mais que tentasse resistir, por menos que os quisesse. Insistia deixar-se levar pelo sabor dos dias, não lhe era permitido. A noite, pelo menos a noite. Implorava. Agora, quase em voz alta. Mas, os fantasmas não o deixavam. Há situações em que a liberdade é apenas uma utópica ilusão. Porra. Pelo menos uma noite.

segunda-feira, abril 10, 2006

on demenage

Sem pudor colocou todos os livros dentro das caixas de cartão. Não olhou aos títulos, à cor das encadernações. Nem recordou as linhas, as histórias, as vidas, as desventuras. Os mundos que ali estavam guardados. Pegou-lhe sem respeito e atirou-os para o fundo das caixas. Ela fitava-o como quem olha o homem do lixo - não o faria mas alguém tinha que o fazer. Quando estavam já todos arrumados, olhou para as prateleiras desertas e sentiu-se vazia. Ela e a sala. Anos de convivência de um triângulo relacional que ali acabava de uma forma tão bruta. Todas as histórias e vidas e desventuras lhe passaram pela cabeça. Quase que se conseguiu recordar de todas as linhas dos seus livros que aquele homem, com quem dormia todas as noites, arrumava brutalmente dentro das caixas. Ele continuava calado. Também se achou sujo. Alguém tinha que o fazer.

sexta-feira, abril 07, 2006

vivre sans âme...


Faltava-lhe o ar. Não alucinava. Era natural aquele abafado em seu redor. Nunca, nem num pior pesadelo, lhe tinha passado pela cabeça que a sua vida seria tão madrasta. Mas que raio. Que teria feito de tão mal para que lhe calhasse tal desgraça em sorte. Em casa o pesadelo. O marido vegetava. Diambulava num mundo próprio. No trabalho, tirando uma colega e amiga que tinha que ocultar, não tinha mais ninguém. Sismava que, até com essa era enganado. A desculpa era a doença. Tudo o que fazia era desculpável. Era doente. Que raio. Não tinha culpa da doença do benfiquiista definhado com o qual tinha assinado o tal contrato em que as clausulas enumeravam longamente em votos de felicidade, de confiança, de amor eterno e respeito e compreensão e tudo o que é - ou não - suportável aos olhos de qualquer pessoal dita normal. Cumpria o contrato à risca. mesmo que isso lhe custasse uma vida outra que não aquela. O desconhecido de algo que não se sabe como é seria bem melhor que o inferno que vivia. Não era católica mas sabia bem a noção de inferno. Toda a sua vida era o lado prático desse conceito que acreditava, teria sido inventado para intimidar as mentes fracas e não - nunca - para ser experienciado. Estava enganada. O inferno existia. Mas pior que isso era um respeito pelo contrato que, os mesmos do conceito, tinham também inventado. Há pessoas com uma grande força interior. Mesmo que isso as destrua.

sexta-feira, março 31, 2006

the city

Passeava-se pelas ruas com o pacote do vinho. Sim o pacote. Fazia parte da cidade. Confundia-se com ela. Nunca o vira mendigar. Andava por ali. Fora tão válido como os outros, ainda o seria. Baixou os braços. Sempre o conhecera assim. Dono de uma simpatia embriagada do vinho que os sóbrios colocam na comida. O pacote era a sua identidade. Ninguém lhe conhecia o nome mas todos o conheciam pelo “bêbedo que andava sempre com o pacote de vinho”. Não seremos todos assim? Vultos que se confundem com os lugares sem que ninguém saiba quem realmente são?

terça-feira, março 28, 2006

chaise

Levantou-se da cadeira. Mesmo sem que esta tivesse tempo para arrefecer. Olhou para o ecran. acedeu ao diário Escreveu. Levantou-se. Deu-lhe um beijo. Piscou o olho. Ela percebeu. Deitaram-se. levantaram-se. Era sempre assim. Tirando o jogo da cadeira.

sábado, março 25, 2006

mesmo que...

Saiu. Ele ficou. Mas estava tudo bem.

quinta-feira, março 23, 2006

partilha-me


Todos os dias lhe contava o seu dia. Tudo. Até o mais desinteressante pormenor. Perguntava-lhe até à exaustão o que achava do que tinha feito. Era a forma que tinha de partilhar momentos em que não podia estar presente. Pensou escrever uma carta, um diário de papeis soltos tal como as coisas que lhe contava. Achou que seria melhor se lho contasse. Aborrecia-lhe as conversas indiscretas acerca do colega do escritório que cheirava mal. Não teria mais nada para lhe dizer se de outra forma fosse. Aborrecia-a. Vivia na ânsia de cumprir o programa que tinha traçado para si mesma. Vivia para que saísse para outro lado onde iria mais tarde sentir sufocada, pelas mesmas ou por outras razões. Isso não a demovia. Era verão. No Inverno passado a mesma coisa e assim na anterior estação. Aborrecia-a. Teve medo que algum dia, sem aviso, visse partir o comboio e ele ficasse ali, a contar, a ninguém, o que lhe tinha acontecido nesse dia. Calou-se. Falava agora de televisão. Mesmo aborrecido.

quarta-feira, março 22, 2006

fê-lo

Acordou-o com um beijo... Há coisas que não se fazem.

terça-feira, março 21, 2006

assim

Caiu um pingo. Acordou. Mesmo debaixo da chuva intensa, caminhara sem se aperceber o tempo que fazia. Acordara debaixo de chuva intensa sem se poder defender dos cada vez mais pesados pingos. Bastou uma gota, naquele momento, para se aperceber que estava encharcado. Sentiu um arrepio. Estava molhado de mais. Deixou-se ir. Assim. Mesmo que detestasse andar molhado.

quarta-feira, março 15, 2006

música

Mesma sala, mesmo concerto, mesma música. Ambos estavam lá. Pouco provável que os pensamentos se acompanhassem. Ambos deram as mãos e mesmo assim... A música era para eles um comboio que partia em direcção a destinos que apenas eles sabiam onde ficavam. À noite já na cama, já vencidos pelo sono, sonharam com os mesmos desejos, as mesmas desilusões, as mesmas pretensões, a mesma vid… tocava o despertador. Talvez o relógio não quisesse que o sonho revelador os iludisse com algo que nunca se deve adivinhar, a vida. Foi melhor assim, pensou ele mesmo antes de entrar para a banheira.

segunda-feira, março 13, 2006

talking about love

Quantas vezes o amor não é mais do que pendurar uns simples candeeiros para que, no fim do dia, lhe veja o brilho nos olhos. Coisa estranha o amor! Ele não achava.

sexta-feira, março 10, 2006

porquê

Sabia bem por que o fazia.
Havia quem achasse que era teimosia, quem pensasse que o fazia para ficar com os louros do primeiro lugar de um pódio criado apenas por ele, acreditava-se que o fazia esperando um agradecimento eterno, que ninguém estava predisposto a conceder. Trabalhava muito e, mesmo que não esperasse nada em troca, não lhe parecia de mais. Depois das sete, vestia a pior roupa que tinha e enfiava-se no meio do pó. Fazia o melhor que sabia e conseguia. Era muito.
Fazia-o por eles.
Desde o início, chatearam-se, fartaram-se, avançaram, acreditaram, recuaram, desmoralizaram, chegaram a sorrir no início mas depressa se aperceberam das adversidades. É tão difícil levar em frente um projecto a dois – chegara a pensar. Passou-lhe pela cabeça desistir – porque não. Era teimoso. Foi o que lhe valeu.
Estavam juntos e isso parecia-lhes o mais importante. Amam-se e isso chega para que enfrentem os problemas. Pelo menos acham que sim.
Talvez achem bem.

quinta-feira, março 09, 2006

cá estamos

Olhara para a janela do escritório uma última vez. Era a primeira vez que a via daquela maneira. Acabara de receber um telefonema da mãe. Mesmo estando três casas acima da sua, resolveu dar-lhe notícia pelo ríspido aparelho. “O teu pai aceitou assinar”. Desligou. Os olhos encheram-se de um fluido estranho. Reparou, pela primeira vez, que a janela dividia a meio o prédio do outro lado da rua, tal qual a anunciada assinatura dividiria três vidas. De relance, pensou nos trinta e dois anos passados. Escorregou-lhe uma gota pelo rosto. Fez face a outra quando reparou que o colega o observava. Pegou na caneta, olhou para o papel. Justificava agora os trocos que recebia no final do mês, no mais credível faz de conta que conseguiria algum dia simular. Não se atreveu a levantar a cabeça quando ouviu um polido Está tudo bem? Não queria correr o risco de ser traído por outra lágrima que inadvertidamente lhe percorresse o rosto. Cá estamos!

terça-feira, março 07, 2006

ali

Todos os dias, mesma hora, todos partiam e ele ficava ali, sentado como se quisesse que o dia lhe passasse de repente. Queria que fosse já noite quando tirasse os olhos do monitor e pudesse arrastar-se para casa. Depois desistia. O barulho do ar condicionado ressoava-lhe na cabeça. Ao sinal da uma levantava-se, pegava no casaco e saía. Todos os dias se limitava a existir. Dava-lhe menos trabalho. Doía-lhe muito.

segunda-feira, março 06, 2006

tudo igual e mais...

Dois dias sem grandes emoções em que tudo igual a tantos outros pares de dias. Não foi. Neste dois, disse que o amava. Já o tinha feito antes, mas agora de forma diferente, não o verbalizou. Encontrou no fundo de si a maneira de o dizer. Ele a forma de o entender. Foram dois dias sem grandes emoções mas soube-lhe bem.

sexta-feira, março 03, 2006

Conta-gotas

A vontade de estar fez-me voltar. Deixar as ideias de parte e tentar voltar, qual gota liberta do manto de neve que pinta o telhado. Voltar da inconsciência premeditada, da clausura que a liberdade de ficar agarrado a concessões involuntárias pode trazer. Quantas vezes nos julgamos livres quando cavamos o próprio covil. Sair.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Quem se lembra?

Alguém sabe quem são?



quarta-feira, janeiro 18, 2006

Regresso (ou não)

Volto agora aqui.
Curioso como a vida mudou desde que deixei de escrever aqui - se é que o que faço é escrever... Adiante.
Estou diferente, a vida mudou como estava programada com altos e baixos. Nada foi surpresa. Curioso como os sempre iguais altos e baixos podem ser tão distintos entre eles. Como nos fazem percorrer estes caminhos, outros que não estavam nos planos e que são apenas outros, sem apreciação qualitativa. Mudou a vida enquanto aqui as frases velhas esperavam. Bolorentas. Deixamos tantas vezes as pessoas assim também... à espera que resolvamos voltar. Que triste quando regressamos de onde nem sequer percebemos partir.
A vida está bem diferente e eu voltei... aqui e a ti.